|
PAC prioriza projetos de usinas hidrelétricas
BRASÍLIA - Colocado em segundo plano na última década, o planejamento do
setor elétrico ganhou forte impulso com a divulgação do Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC), na semana passada. No anúncio das
medidas, recebeu pouca atenção a promessa do governo de renovar a carteira
de projetos de usinas hidrelétricas em análise para futura oferta à
iniciativa privada. O potencial de energia hidráulica ainda inexplorada no
país já vinha sendo mapeado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que
começou a funcionar em 2005, mas o PAC colocou metas explícitas para a
renovação dessa carteira.
No pacote de infra-estrutura lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, o governo assumiu o compromisso de concluir estudos de viabilidade
econômica e estudos de impacto ambiental (EIA-Rima) de nove
aproveitamentos hidrelétricos até o fim de 2010. Esses aproveitamentos
totalizam 25.768 megawatts (MW) de energia, o equivalente a quase duas
usinas de Itaipu. Com estudos concluídos, os projetos estarão prontos para
entrar com pedido de licença ambiental e, em seguida, serem levados a
leilão.
São empreendimentos cuja operação não poderá começar ainda no governo
Lula, mas o caminho estará aberto para que sejam licitados na próxima
administração. Estão na lista a hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu
(PA), e das usinas do rio Teles Pires (MT/PA). Além disso, o PAC
estabeleceu a meta de inventariar outras dez bacias hidrográficas, com
potencial de gerar mais 32.950 MW de energia, até 2010.
O estudo de inventário, primeira etapa na identificação de aproveitamentos
hidrelétricos, investiga como deve ser o uso das quedas d ? água para a
geração de energia e define a melhor partição do rio ou da bacia
hidrográfica para fins energéticos. Na fase seguinte, o estudo de
viabilidade analisa os aspectos técnicos e econômicos de cada usina em
potencial. Geralmente, o EIA-Rima é realizado ao mesmo tempo.
Conforme explica o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim, o período
consumido entre a elaboração dos inventários e a licitação do
empreendimento é de cerca de quatro anos. A decisão de priorizar a
renovação da carteira de projetos, segundo ele, deixará o próximo
presidente em situação mais confortável para leiloar usinas e atender à
demanda futura de energia. É uma diferença brutal em relação ao início do
governo Lula, em 2003, quando havia apenas 17 hidrelétricas e menos de
4.000 MW em projetos prontos para licitar à iniciativa privada. "
Recebemos o setor elétrico numa situação muito difícil " , diz Tolmasquim.
Houve um " desmonte " do planejamento estatal, na avaliação do presidente
da EPE, devido à crença de que os próprios agentes privados conduziriam os
estudos necessários. A suposição não se revelou correta, segundo
Tolmasquim. " No setor elétrico, os projetos são de longa maturação.
Existe um hiato muito grande entre um sinal de mercado, manifestado pelo
preço, e o resultado desse sinal " , observou. " É justamente por isso que
precisamos de alguém planejando esse mercado " , acrescentou o
especialista, em referência à estatal, criada no novo marco regulatório do
setor elétrico, idealizado por ele e pela ministra Dilma Rousseff.
Levantamentos da EPE apontam que o Brasil usou apenas um terço de sua
capacidade hidrelétrica até agora, mas quase 70% do potencial ainda
inexplorado encontra-se na região amazônica. Inevitavelmente, o país terá
que encarar a discussão de entrar ou não na Amazônia para construir
usinas. " Do ponto de vista econômico, é interessante. Do ambiental, terá
que haver uma discussão " , avalia Tolmasquim.
Para o presidente da Associação Brasileira dos Investidores em
Autoprodução de Energia Elétrica (Abiape), Mário Menel, o país não pode
abrir mão do potencial da Amazônia na geração de energia. Com consumo per
capita ainda baixo e uma indústria com alta participação de setores
eletrointensivos, ele considera que usinas térmicas - seja a gás, carvão,
nucleares ou de biomassa - não garantem conforto para atender a uma
aceleração do crescimento econômico. " Não há um cenário possível em que
se possa descartar a energia hidráulica " , comentou Menel.
Fonte: Valor Econômico
01-02-2007
Início da Página
|